quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Redes sociais são mais ágeis que SAC como canal de reclamação

13/10/2011 - 07h51  LUCAS SAMPAIO
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

Allan Panossian, 26, recebeu seu tablet de uma loja em menos de nove horas depois de reclamar no Twitter
Allan Panossian, 26, recebeu seu tablet de uma loja em menos de nove horas depois de reclamar no Twitter

O problema de Allan Panossian, 26, começou em 3 de setembro. O empresário comprou um Motorola Xoom no site do Magazine Luiza e, após cinco dias, recebeu o produto com o lacre violado.

Resolveu trocar o aparelho e, depois de 19 dias, ainda não tinha conseguido. Panossian pôs a boca nas redes sociais: criou um blog e uma conta no Twitter para divulgar sua história.

Em menos de nove horas, um motoboy entregou um Xoom com 3G (ele havia comprado uma versão mais barata, sem a tecnologia) na sua casa -a equipe de monitoramento de redes sociais do Magazine Luiza identificou seu caso e solucionou a questão.

"Fiz o blog porque não sabia mais o que fazer. Já tinha tentado todos os canais", diz.

Panossian é um exemplo de algo cada vez mais comum: clientes que usam a internet para reclamar de falhas de empresas são atendidos mais prontamente.

"Quando só existiam os canais tradicionais de SAC [serviço de atendimento ao consumidor], muitos casos não eram resolvidos", diz Elizangela Grigoletti, 33, gerente de inteligência e marketing da Miti, empresa que faz monitoramento de redes sociais. "As empresas agem mais rapidamente, porque acabam expostas. E o consumidor explora essa oportunidade."

"Aconselhamos a empresa a tratar o usuário das redes sociais com maior urgência", diz Alessandro Barbosa Lima, 40, executivo-chefe da E.life, outra empresa de monitoramento. "Quando procura as redes sociais, a pessoa já está descrente. Não dá para ter o mesmo atendimento."

Barbosa diz que os SACs eram vistos sem relevância pelas empresas, algo obrigatório por causa das leis do consumidor. "Hoje são tão importantes quanto a área de marketing. Em cinco anos, as redes sociais vão ultrapassar o atendimento do 0800."

Para o especialista em redes Augusto de Franco, 61, aumentou a capacidade de controle e fiscalização das pessoas porque agora elas têm liberdade e instrumentos. "As empresas não querem que a reputação da marca seja comprometida."

Luiza Sigulem/Folhapress

TRANSPARÊNCIA E RAPIDEZ
 
A internet mudou completamente a forma como clientes e empresas se relacionam.
Enquanto a interação no SAC ainda é unidirecional, as redes sociais deram poder aos usuários. "Antes você reclamava para seus amigos e nada acontecia. Nas redes sociais você escancara essa situação", afirma Renato Shirakashi, cofundador da Scup, empresa de monitoramento de redes sociais.

Shirakashi fala em "tirania da transparência", uma nova realidade para as empresas se adaptarem. "Você é obrigado a ser transparente, a ser rápido e a se comunicar de uma forma não corporativa com o cliente. As empresas não têm mais escolha. É mais fácil para o cliente e dá mais resultado."

Juliana Rios, superintendente do SAC do Santander, concorda. "Não existe mais a opção de não estar nas redes sociais. O efeito avassalador atinge todo mundo." Ela diz que a expectativa de resposta é totalmente diferente nesse novo SAC: "A própria rede não permite responder no dia seguinte".
No Santander, há três metas: protestos que chegam via Twitter têm de ser atendidos em até duas horas; via Facebook, em 24 horas; via telefone, em até cinco dias úteis. Outras empresas trabalham com prazos similares.

DISCRIMINAÇÃO
 
Para órgãos de defesa do consumidor, o tempo de resposta deveria ser um só. "Qualquer tentativa da empresa de facilitar o contato é uma alternativa válida, mas isso não pode virar uma forma de discriminação para um tipo de público", diz a gerente de relacionamento do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor), Karina Alfano.

"As empresas dão prioridade para esse canal de comunicação, porque a marca está sendo exposta de forma negativa. Um canal telefônico deveria ter o mesmo atendimento de um on-line", avalia a gerente do Idec.

Para o instituto, trata-se de uma estratégia de marketing, e não de uma real preocupação com o consumidor.

Assim como Santander, Magazine Luiza e outras empresas, a Whirlpool, das marcas Brastemp e Consul, também têm um núcleo para monitorar redes sociais.

"Quando vem uma menção negativa [nas redes], nossa primeira missão é entrar em contato e resolver o problema do cliente", diz a diretora de marketing da empresa para a América Latina, Cláudia Sender.
"Nosso prazo de resposta é no mesmo dia, mas o ideal é responder aos clientes em, no máximo, uma hora."

Ela afirma que mídias sociais vão ser um dos grandes canais de comunicação com o cliente. "Os meios tradicionais ainda são fortes, mas precisamos pensar no futuro. O consumidor não quer mais comunicação unilateral com a empresa."

William Mur/Editoria de Arte/Folhapress
 

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Steve Jobs não é brasileiro

06/10/2011 - 02h30


O fundador da Apple, Steve Jobs, morreu sem ver sua empresa operar normalmente no Brasil. O americano está sendo saudado justamente como um revolucionário genial que transformou o modo como comercializamos e consumimos cultura e tecnologia. Isso é muita coisa. Mas uma coisa ele não conseguiu: fazer sua empresa ocupar o espaço que lhe cabe no fenomenal mercado brasileiro. E isso diz muito mais do Brasil do que de Jobs.

Até hoje os produtos Apple são comercializados por terceiros no Brasil, já que a empresa americana não conseguiu um modelo de negócios viável na pátria do imposto alto e de ambiente de negócios precário.
Os brasileiros pagam o dobro dos americanos ou mais para comprar os iProdutos criados por Jobs e equipe. A última cartada para a normalização da atuação da Apple por aqui foi o anúncio hiperinflado, para dizer o mínimo, da construção de uma fábrica de iPads no nosso país.

O anúncio ocorreu durante viagem de Dilma Rousseff à China, em abril passado. Na falta de qualquer resultado palpável da visita, anunciou-se com grande fanfarra e nenhuma substância que a Foxconn, empresa taiwanesa que fabrica os iProdutos, abriria uma nova fábrica no Brasil para produzi-los aqui. Era o que faltava para Dilma e o PT conquistarem a emergente classe média nacional.

Como escrevi naquela época neste espaço, a Apple não consegue vender direito seus produtos no Brasil por nossas precariedades econômicas, aciona a empresa taiwanesa que fabrica iPads e iPods na China para que os produza aqui e assim consiga driblar essas precariedades e isso ainda é vendido como um trunfo da visita de Dilma à China. Haja "spin"!

A fábrica obviamente está até hoje na promessa. Desde então, falou-se de produção inicial em novembro, depois que o BNDES financiaria o projeto de US$ 12 bilhões, depois que não haveria mão de obra qualificada no país para tocá-lo, depois que a operação começaria como as "maquiladoras" mexicanas, com os produtos somente montados aqui.

O fato é que Steve Jobs morreu, e o Brasil ainda segue excluído em grande medida da revolução Apple. Assim como seguimos com uma das conexões de internet mais caras e lentas do mundo.

São essas coisas que explicam o nosso atraso, apesar dos enormes avanços dos últimos anos, e a nossa dependência das benditas commodities (porque sem elas teríamos déficits comerciais desastrosos).

Se Jobs conseguiu transformar tanta coisa, quem sabe a comoção com sua morte ilumine a cabeça dos nossos burocratas e acelere a liberalização do mercado brasileiro de tecnologia e digital.

Taxar tecnologia é taxar o conhecimento, a inovação, o futuro. É fechar as fronteiras para Steve Jobs.

Sérgio Malbergier é jornalista.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Belo Monte: a usina que virou um monstro

26/9/2011 - 09h55

por Lúcio Flávio Pinto*

1233 300x192 Belo Monte: a usina que virou um monstroA

Amazônia tem a maior bacia hidrográfica do planeta, que drena rios espalhados por três milhões de quilômetros quadrados, com 8% da água superficial da Terra nesse circuito. Apesar disso, a possibilidade de gerar energia em grande escala na região sempre foi encarada com receio ou desconfiança.

A fronteira energética amazônica fica distante pelo menos dois mil quilômetros dos principais centros consumidores. Levar energia até eles exige geração em grande escala e extensas linhas de transmissão em alta tensão. Sem essa combinação, o empreendimento não se torna econômico.

Mas não basta montar uma equação viável comercialmente e sólida como obra de engenharia. As características naturais amazônicas são adversas a intervenções humanas desse impacto. Os rios são de planície, com baixa declividade natural. Represados, suas águas voltam sobre seu curso, submergindo áreas extensas. Os danos sobre um vasto conjunto de riquezas biológicas são elevados e profundos.
Até 1973, imaginava-se que apenas barragens de baixa queda seriam construídas na Amazônia, para atender demandas localizadas, próximas do aproveitamento energético. Nesse ano, o governo federal criou a Eletronorte e decidiu mudar a abordagem. A Amazônia teria que fornecer energia abundante e transmiti-la por longas distâncias até os centros mais desenvolvidos do país, que, assim, continuariam a ser os mais desenvolvidos (e a Amazônia permaneceria como fronteira, ou colônia).

Com essa visão, o regime militar construiu a maior (Itaipu, no Rio Paraná, no extremo meridional do país) e a quarta maior (Tucuruí, no Rio Tocantins, no Pará) hidrelétricas do mundo. Itaipu é considerada uma das sete maravilhas da engenharia moderna mundial. Tucuruí tem o maior salto em esqui já edificado pelo homem (a água que sai pelas aberturas da barragem, depois de movimentar as turbinas).

Os danos socioambientais das duas usinas não podem ser minimizados. Se Itaipu fosse concebida hoje, a sociedade brasileira aceitaria que ela causasse o sacrifício das cataratas de Sete Quedas, que proporcionavam aos visitantes um dos espetáculos mais deslumbrantes da Terra? Tucuruí teria aprovação ambiental para submergir uma área de 3.100 quilômetros quadrados, na qual surgiu o segundo maior lago artificial do Brasil? Só para comparar: o Lago Paranoá, em Brasília, tem 48 quilômetros quadrados.

No entanto, um quarto de toda a demanda nacional por energia é atendida por essas duas hidrelétricas, situadas em pontos inteiramente opostos no território brasileiro, separadas por mais de quatro mil quilômetros de distância. O governo, então, agiu certo ao construí-las, a despeito de seus ônus ambientais e sociais?

Não é fácil nem simples dar uma resposta consistente a essa questão. A legislação ecológica do Brasil só se consolidou a partir de 1981, quando as obras das duas gigantescas usinas já estavam bem adiantadas. Uma prova de que a consciência nacional sobre a natureza e os direitos humanos e sociais avançou é que nenhuma das duas obras seria agora licenciada conforme os projetos originais.
A decisão sobre esses projetos aconteceu na década de 1970. Vigia – e até hoje permanece em vigor – na construção de uma obra o princípio de que ela só passa a ter existência concreta quando sua viabilidade econômica é comprovada. A única alternativa para essa regra de ouro do capitalismo é o subsídio, exceção que lhe nega as melhores virtudes. É quando, mesmo sem poder se pagar, a obra é executada porque alguém assumirá o seu custo, sem se preocupar com o retorno do investimento realizado. Em geral, a exceção só ocorre quando o governo é quem paga a conta. Como governo não produz, a conta é repassada ao contribuinte, aquele que paga impostos.

O que define a rentabilidade de uma hidrelétrica é o seu “fator de carga”. Ou seja: a energia que ela poderá oferecer o ano inteiro. A média é tirada entre o pico da geração, quando há água para acionar todas as turbinas instaladas na casa de força (e ainda sobra para ser vertida de um lado para outro da barragem, sem passar pelas máquinas), e o mínimo do verão. Para que uma hidrelétrica amortize o que nela foi gasto, é preciso que essa energia firme varie em torno de 55% da capacidade nominal de geração.

Tucuruí socorrida pelo Tesouro

Como a diferença de vazão no Rio Paraná não é tão grande, o “fator de carga” de Itaipu é de 61%, acima, portanto, do ponto de equilíbrio. Por isto, a usina é rentável e sustenta o Paraguai, que divide sua propriedade com o Brasil (mesmo sem ter investido na obra).

Já em Tucuruí, a energia média é de 49%. Podia ser um pouco maior e talvez chegar aos 55% desejados. Mas, para isso, a crista da barragem, que é de 72 metros, teria que ser elevada. A inundação se tornaria desastrosa, mesmo sem chegar à catástrofe que foi a Usina de Balbina, no Amazonas, obra também do regime militar (com apenas 3% da potência de Tucuruí, inundou área equivalente a 80% do que foi submerso no Tocantins).

Tucuruí só não levou a Eletronorte à ruína porque, sendo estatal, foi socorrida pelo tesouro nacional. Seus prejuízos cresceram ainda mais porque as duas maiores clientes da Eletronorte, a Albras e a Alumar, duas das maiores fábricas de alumínio do mundo, ganharam tarifas subsidiadas (abaixo do custo de geração).

Instaladas em Belém e São Luís do Maranhão, as duas indústrias, agora sob controle multinacional pleno, são responsáveis por 3% do consumo nacional de energia. Os prejuízos da Eletronorte acabaram sendo absorvidos pelo governo e pela Eletrobrás, a holding do sistema. E repassados para os cidadãos.
As administrações democráticas do sociólogo Fernando Henrique Cardoso e do operário Luiz Inácio Lula da Silva, seguidas pela companheira Dilma Rousseff, ao contrário do que delas se podia supor na época do regime militar, ao qual se opunham e pelo qual eram perseguidos, pretendem intensificar – e não arrefecer – a construção de mega-hidrelétricas na Amazônia. Parecem convencidas de que os benefícios dessas obras extravasarão seus custos. Vão corrigir os erros já praticados ou repeti-los, agravados?

O teste decisivo está sendo realizado na Amazônia, onde já estão em obras três grandes hidrelétricas, com potência global de 18,5 mil megawatts e investimento de mais de R$ 50 bilhões. Elas interrompem ou dão prosseguimento ao modus operandi do regime militar?

O “fator de carga” de Itaipu, a maior do mundo, é de 61%. A de Tucuruí, a quarta maior, ficou em 49%; por isso a usina do Rio Tocantins, no Pará, teve que ser subsidiada. O fator de carga na hidrelétrica de Santo Antônio é de 70% e na de Jirau, também no Rio Madeira, em Rondônia, é de 57%. Já a energia firme de Belo Monte, no Xingu, ainda em território paraense, está prevista para ser de 40%.

À margem do grosso tiroteio que o projeto tem provocado, duas perguntas elementares precisam ser respondidas: por que a energia média ficou tão baixa? E por que, mesmo assim, o governo decidiu levar avante o projeto?

Para que Belo Monte gerasse mais energia, seria preciso que a barragem fosse mais alta, para aumentar a queda de água na direção das máquinas e, ao mesmo tempo, estocar mais água no seu reservatório para o período de estiagem. Nessa época, a vazão do rio é mínima, insuficiente para acionar uma só das 20 enormes máquinas da usina, cada uma delas necessitada de 700 mil metros cúbicos por segundo.

Com isso, porém, a área de inundação de Belo Monte seria enorme. Alagar tanta terra sempre foi o calcanhar de Aquiles do projeto. Foi o que o manteve congelado durante mais de um terço da sua história, desde que o rio começou a ser inventariado (na segunda metade dos anos 1970, em pleno regime militar), por causa da reação da opinião pública a esse desastre ecológico.

A segunda barragem, de Babaquara, rio acima, concebida para regularizar o Xingu naquele trecho, foi cancelada. O lago de Belo Monte, que era originalmente de 1.600 quilômetros quadrados, foi reduzido a 510 quilômetros quadrados, seis vezes menos do que o reservatório de Tucuruí, o segundo maior lago artificial do Brasil. E a potência instalada de Belo Monte será de 11 mil megawatts contra pouco mais de 8 mil megawatts de Tucuruí. Uma relação energia/área inundada muito mais saudável, portanto.

Ao puxar o lençol do reservatório para cobrir a chaga ecológica do alagamento de terra, os técnicos criaram o projeto da maior hidrelétrica a fio d’água do mundo. Essas usinas são de pequeno ou médio porte justamente porque, sem reservar água para o verão, funcionam apenas com o que flui naturalmente pela bacia de drenagem. Param no verão.

Para quê construir uma enorme estrutura se no verão o vertimento natural será insignificante? É o que explica as duas primeiras hidrelétricas da Amazônia, construídas antes da era das gigantescas usinas, como Tucuruí, terem entre 30 e 40 megawatts, no Pará e no Amapá. Uma única turbina de Belo Monte terá 20 vezes mais potência do que as hidrelétricas de Curuá-Una e Coaracy Nunes. Engenhosos, os engenheiros buscaram uma alternativa. Já que não iam estocar energia para o verão, sugeriram que fosse aproveitado o desnível de 90 metros que há entre o ponto a montante do rio, onde ficará a barragem secundária (no sítio Pimental), de baixa queda, e a casa de força, a jusante, numa distância de 50 quilômetros. É aí que se localiza a Grande Volta do Xingu, um paraíso natural que os críticos de Belo Monte garantem que a usina destruirá.

Para a água descer com fluência, o projeto prevê a construção de canais de concreto na direção da casa de máquinas, aproveitando a drenagem natural. Este é o elemento mais polêmico da engenharia em si: esses canais funcionarão a contento? São seguros contra grandes impactos ambientais? Tratando-se de uma estrutura que utilizará mais concreto do que o aplicado no Canal do Panamá, não são questões irrelevantes.

Os desafios à engenharia, pelo contrário, são imensos. Tão grandes que o orçamento oficial de Belo Monte subiu de R$ 19 bilhões para bem próximo de R$ 30 bilhões, sem incluir mais uns dois terços de investimento na extensa linha de transmissão de energia. Tão incertos que todas as empreiteiras de tradição no setor pularam o balcão: deixaram de ser sócias no projeto de energia para se tornarem suas construtoras. Ao invés de investir, vão faturar com aquilo que mais sabem fazer: realizar a obra em si e, graças ao seu gigantismo, manter seu poder político.

Quem investirá? As estatais, é claro, e seus fundos, mas principalmente com o dinheiro do BNDES, que, não tendo tanto (prometeu entrar com 80% do valor necessário), teve que recorrer ao tesouro nacional; que, por sua vez, se desvia de suas funções mais nobres para garantir a sangria do erário.
De tanto mexer no projeto original de Belo Monte, que era inaceitável (só um regime de força podia impô-lo goela abaixo da nação, como aconteceu com Tucuruí e Itaipu), os engenheiros criaram um monstro, um Frankenstein energético.

Para que ele funcione, o governo (e, no fim da fila, o contribuinte) terá que pagar a fatura. Para que, ao menos no inverno, a maior hidrelétrica do país mande energia na direção sul. Apenas 3% ficarão na própria Amazônia.

Ao invés de fixar a riqueza da região, Belo Monte a sugará. Um modelo colonial com a marca do PT de Lula, de Dilma e de quem mais aparecer.

* Lúcio Flávio Pinto é editor do Jornal Pessoal, de Belém, Pará.
** Publicado originalmente no Jornal Pessoal e retirado do site IHU On-Line.

Carta Aberta para nossos Senhores/Amos Corporativos

Janeiro 25, 2010

Nota do Blog: Esta é uma tradução livre da carta original publicada no Blog do Warren. O contexto é americano, mas se olharmos o Brasil veremos como o sistema corporativo feudal é o mesmo. Basta ver o lucro obsceno dos bancos, instituições oficiais de agiotagem; ou a capacidade das corporações e dos coronéis do agronegócio de destruir nossas ricas matas e ainda mudar o Código Florestal, mesmo com zero apoio popular; ou dos usineiros das capitanias hereditárias, que achincalham a lealdade do brasileiro com o etanol e, não contentes, metem 20 trancas na porta que permitiria a entrada do carro elétrico no Brasil; ou das montadoras corporativistas de "carroças nacionais," que a despeito de cobrarem 3 vezes o que os veículos valem, ainda fazem lobby para impedir a entrada de carros asiaticos (os quais os forçaria a baixar os preços e aumentar a qualidade). O texto abaixo tem tudo a ver com a enferma tecno-civilização global e com o moderno feudalismo - reinventado e ardilmente disfarçado de democracia pela corrompida ideologia do egoísmo borbulhante e da competição cega.



Prezados  Senhores,

Por favor, desculpe minha presunção, em escrever diretamente para aos Senhores. Eu nem sei o tratamento correto para me dirigir aos Senhores, e temo que "Prezados Senhores" não expresse suficientemente o reconhecimento  das vastas diferenças entre nossa condição. A Suprema Corte do meu país (USA) conferiu recentemente a Vossas Senhorias os poderes que Vossas Senhorias tem procurado por muitos anos, e felicito Vossas Senhorias por esta vitória no Poder Judiciário. Espero que em breve seja seguida por vitórias em outros poderes também.
Deixe-me ser franco. Tenho muito medo de Vossas Senhorias. É apenas a minha relativa insignificância em relação aos grandes planos de Vossas Senhorias que me dá coragem de falar, pois eu tenho certeza que se de alguma forma eu produzisse qualquer inconveniência real a Vossas Senhorias, eu seria esmagado. Mesmo mencionar a possibilidade de que eu pudesse gerar qualquer inconveniência a Vossas Senhorias é uma presunção, eu sei, dada a nossa abissal diferença de poder e influência. Eu posso falar da minha Dignidade e de meus Direitos, mas sei que a única razão porque tenho Dignidade e Direitos é porque Vossas Senhorias permitem. Perdoem-me. Não quero ofender Vossas Senhorias, já que Vossas Senhorias tem em suas mãos (metaforicamente falando, claro, uma vez que Vossas Senhorias não tem mãos) o futuro de tudo que me é caro.
 
Prezo minha família, minha esposa, minha linda e precoce filha de cinco anos. Prezo o meu trabalho, sou professor de música, e que ocupação mais agradável poderia haver do que partilhar da música que amo com meus semelhantes? Prezo as belas florestas perto de minha casa, porque caminhar por entre as árvores altas acalma meu coração e diminui a intensidade de meus pensamentos. Prezo as memórias dos meus professores e suas influências, e daqueles que foram companheiros de viagem nesta vida. Prezo os incontáveis elos na corrente ​​humana - até onde nós, macacos inteligentes, chegamos em apenas algumas curtas dezenas de milhares de  anos!

Acima de tudo prezo a Teia da Vida, da qual sou parte. Quando contemplo minha Morte,  estou confortado ao saber que meu corpo é feito de Matérias da Terra e Matérias do Sol, e que acabará eventualmente servindo como alimento para outras Vidas.

O que me assusta em Vossas Senhorias, caros Amos, é que Vossas Senhorias não podem contemplar vossa Morte, porque Vossas Senhorias são imortais. E, porque Vossas Senhorias não são feitos do mesmo material que Nós, Vossas Senhorias não tem vínculos de simpatia com Nós.

Então eu não posso apelar para as melhores naturezas de Vossas Senhorias, já que para os padrões da vida Terrena, Vossas Senhorias não tem nenhuma boa natureza. Eu só posso apelar para as naturezas predatórias de Vossas Senhorias; estas, Vossas Senhorias tem em abundância.

Nos últimos dois séculos Vossas Senhorias construiram sistemas econômicos que dependem de Nossa disposição de transformar-nos em lixo; sistemas articulados sobre a exigência de que Nós continuemos a consumir a taxas cada vez maiores.  Não consumir é falhar com nosso dever para com Vossas Senhorias, nossos Amos e Mestres.
Porém, caros Amos, começamos recentemente a perceber que o poder do sistema econômico de Vossas Senhorias está matando o planeta em que vivemos. Inúmeras espécies estão morrendo todos os dias; nos anos e décadas vindouros milhões desaparecerão da Terra a uma taxa mais acelerada do que em qualquer momento da história de nosso planeta (exceto, é claro, no dia quando o Grande Meteoro bateu).  Temos consumido avidamente a Matéria Solar armazenada em nosso planeta (petróleo), como Vossas Senhorias Nos ordenaram... mas recentemente Nós descobrimos que queimar a Matéria Solar está aquecendo a nossa atmosfera.

Se isso continuar, Caros Amos, há uma grande probabilidade de que todos Nós vamos morrer. Não "morrer", como em "seres humanos morrem todos os dias", ou "seu cachorro morreu na semana passada", mas "morrer" como em "a Terra não será mais capaz definitivamente de suportar qualquer forma de vida, porque ela vai estar muito quente."

E, em seguida, Caros Amos, o que Vossas Senhorias fariam?


Faltando a substância física, não sendo feitos de Matérias Terrestres e Solares como nós somos, Vossas Senhorias não poderão ficar de pé sobre a superfície de um planeta cozido, perguntando para onde todos se foram. Vossas Senhorias podem ser imortais, mas mesmo imortais têm que comer, e nós alimentamos Vossas Senhorias. Embora Vossas Senhorias não sejam feitos do mesmo material que Nós, se Nós morrermos, assim também Vossas Senhorias obrigatoriamente morrerão, e as mortes de Vossas Senhorias serão solitárias.

Suponho que Vossas Senhorias não queiram isso.

E assim, Caros Amos, eu timidamente defendo minha causa.


Ajustem vossos Sistemas Econômicos somente um pouquinho, de modo que Vossas Senhorias possam maximizar vossos lucros a partir de Nós no longo prazo ao invés de realizar ganhos obcenos e destrutivos no curto prazo. Eu vou pagar a Vossas Senhorias o que ganhar e comprar o que me disserem para comprar; em mais uma década vou mostrar a minha pequena menina como obter o seu próprio cartão de crédito para que Ela possa também entrar no serviço de Vossas Senhorias. Eu não me importo de continuar a ser trabalhador escravo de Vossa Senhoria; eu não me importo se a minha filha e seus filhos e os filhos de seus filhos até a centésima geração permanecerem na servidão de Vossas Senhorias.

Mas Vossas Senhorias precisam mudar as coisas apenas um pouco, para que essas crianças possam viver. Caso contrário, ninguém vai ter a chance, porque a Terra estará morta e mortos estarão Vossas Senhorias também.

Caras Corporações, Vocês sozinhas tem o poder de redirecionar recursos suficientes neste mundo para corrigir os problemas que Vocês próprias causaram. Vocês são nossos Amos, Senhores Feudais da Modernidade. Está no seu interesse manter a Terra um lugar bom para se viver, para que Vocês possam continuar a Nos consumir por milhares de anos.

Se Vossas Senhorias fizerem isso, se Vossas Senhorias fizerem essas mudanças, então eu posso morrer satisfeito, sabendo que os elos da nossa Corrente Humana não vão acabar como escória na face de uma paisagem venusiana. E, talvez, minha cem vezes-grande tataraneta e seus contemporâneos Humanos possam encontrar uma maneira de superar o Dominio de Vossas Senhorias, e viver livremente e pacificamente, sem desperdícios, dissipação ou guerra, em uma boa Terra, verde e azul, repleta de vida abundante. Isso é tudo que eu quero: apenas saber que as crianças terão uma chance, daqui a alguns séculos.

Agradeço a Vossas Senhorias por ouvir, se Vossas Senhorias estiverem ouvindo.

Vosso súdito mais humilde e abjeto,

WarrenS

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

US Joins Transparency Initiative Amid Open Government Launch

The U.S. committed to implementing the Extractive Industries Transparency Initiative as part of the launch of the Open Government Partnership, President Barack Obama said Tuesday.

Mandel Ngan.Agence France-Presse/Getty Images
U.S. President Barack Obama speaks at the Open Government Partnership event on Sept. 20, 2011, at the Waldorf Astoria Hotel.
The U.S was one of eight nations on Tuesday to release their commitments to the Open Government Partnership, a multilateral initiative devoted to supporting national efforts to promote transparency, fight corruption, strengthen accountability and empower citizens. The partnership, according to a White House fact sheet, was led by a steering committee that included governments and civil society organizations from across the globe.
“We pledge to be more transparent, at every level—because more information on government activities should be open, timely and freely available to our people,” Obama said at the Waldorf Astoria hotel in New York, according to prepared remarks.
Obama said Tuesday that in addition to implementing rules governing transparency in the oil, gas and mining sectors, the U.S. will commit to joining the The Extractive Industries Transparency Initiative, or EITI.
The EITI is a multi-stakeholder group that advocates for disclosing payments made to foreign governments by oil, gas and mining companies. A provision of the Dodd-Frank Act mandated such payments be disclosed, but the rules governing the program have yet to be implemented. Though proposed in December, the final rules are scheduled to be released by the end of the year.
“It’s game-changing, both for domestic reasons by bringing greater clarity to what’s going on in the sector and hugely significant in terms of building a global standard” said Jonas Moberg, head of secretariat for the EITI, in an interview on the sidelines of a separate Open Government Partnership launch in New York.
In addition to the disclosure by American companies doing business overseas, the U.S. sees joining the EITI as a way to make sure “taxpayers receive every dollar they’re due from the extraction of our natural resources,”  Obama said.
In other words, an international initiative need not only influence U.S. engagement abroad.
Joining the U.S. in shepherding the partnership to fruition was Brazil, which has seen five cabinet-level officials leave government in the last nine months amid corruption scandals. Both Obama and Brazilian President Dilma Rousseff hosted a meeting of the heads of state at the Waldorf to announce the partnership’s launch; another 38 nations said they will have action plans by March 2012, when the partnership meets next in Brazil.
Along with the U.S. and Brazil, the other nations that delivered their commitments for Tuesday’s launch were Indonesia, Mexico, Norway, Philippines, South Africa and the U.K.
The U.S., according to its action plan (pdf), committed to promoting public participation in government, which included a petition platform; modernizing the management of government records; improving the administration of the Freedom of Information Act; declassifying national security information; improving agency open government plans; strengthening whistleblower protections; enhancing its enforcement of existing regulations; and advocating for legislation requiring disclosure of beneficial ownership of corporations.
On many of these issues of government openness, the Obama administration has been criticized, notably from the left as well as from political opponents to his right. For example, Salon.com blogger Glenn Greenwald has written about an “unprecedented war on whistleblowers” taken on by the Obama administration despite a pledge issued during the administration’s transition that the Obama Justice Department would protect leakers.
In Tuesday’s Open Government Partnership plan, the U.S. said it would use executive power to expand whistleblower protections should Congress not act, though it noted that “statutory reform is preferable.”
Anti-graft activists praised other elements underpinning the U.S. plan.
“Requiring companies to disclose their ultimate owner when they form will make it much harder for corrupt politicians, tax evaders and other criminals to hide their identities behind anonymous American shell companies in order to launder illicit proceeds through U.S. banks,” wrote Stefanie Ostfeld, a policy adviser for Global Witness, in an email.

O corruptor

21/9/2011 - 09h56
por Valdemiro A. M. Gomes*
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A Transparência Internacional (TI) apontava, julgo que em 2007, o Brasil e China juntos, com a pontuação de 3,3, em lista na qual o Haiti, com pontuação 1,8, era o mais corrupto, e Finlândia, Islândia e Nova Zelândia, com 9,6, os menos. Os estudos indicavam que os mais corruptos são os de maior desigualdade social, os mais pobres e os menos democráticos.

E os mais corruptores?

Não conheço pesquisa, mas julgo não errar em afirmar que são empresas sediadas, escondidas, em paraísos fiscais. Você sabia que as ilhas Cayman, com produção zero de petróleo, é um grande exportador de petróleo para o Brasil? Será que o Brasil trata com rigor a corrupção? Quantos corruptores no Brasil já foram presos? Você sabia que o homem mais rico da China em 2008, o empresário Huang Guangyu, com fortuna avaliada em US$ 6,3 bilhões, foi condenado a quatorze anos de prisão e pagamentos de inúmeras e vultosas multas? O mundo começa a aperceber-se de que a corrupção não é apenas um problema político. A corrupção é um entrave a que o mundo saía da crise, que volte a desenvolver-se. Um diretor do FMI, Vito Tanzi, afirmou que o combate à corrupção será uma das principais frentes de batalha neste século. A sonegação de impostos começa a asfixiar os Estados, coloca em risco a economia de mercado.

O melhor freio contra a corrupção é a intolerância do público, do cidadão. A sociedade brasileira começa a usar as novas ferramentas da democracia. O projeto de lei PLS 204/11, que pretende incluir a corrupção na lei dos crimes hediondos, recebeu o apoio, via internet, de quase quinhentos mil brasileiros. Lamentável que a mídia não tenha divulgado a enquete que o Senado promoveu demonstrando que precisa ser repensada.

Em meu pensar, o projeto de lei em tramitação devia ser aperfeiçoado, com uma redefinição do que seja corrupção. A Inglaterra acaba de aprovar a Bribery Act, lei da propina, que nossos senadores deviam estudar. O conceito de corrupção não deve mais ser restrito à esfera pública. A corrupção comercial é talvez o pior dos cânceres de corrupção e o corruptor, a maçã do pecado.

Fui empresário da construção civil por vários anos. Nunca consegui levantar voo na área de construção pública inclusive quando amigos ocuparam cargos superiores no Estado e na União. A terra não tinha o pH para minha semente. Ainda tentei, mas sempre era chamado para uma “reunião” com os demais concorrentes. Reuniões secretas, sigilosas. Como sempre tive medo do escuro, desisti e fui plantar em outras terras. A prática de acerto de preço entre companhias que concorrem em licitações, ferindo a livre concorrência, devia ser incluída na lei da corrupção.

No passado, em várias semeaduras, escrevi sobre as causas e males da corrupção. Hoje, quando é notória a insolvência das finanças públicas das nações, inclusive das chamadas ricas, o combate à corrupção ganha força. É necessário rediscutir e redefinir conceitos e leis. Os governos sabem que não adianta mais abrir a torneira dos impostos se o ralo não for consertado.

Como consertar o ralo?

Com o aperfeiçoamento da lei da Transparência, com a proibição de que parlamentares, ministros e outros altos funcionários públicos possam ser sócios de empresas que negociem com o Estado, com a redefinição do que seja sigilo bancário, com uma lei mais dura contra os corruptos e especialmente contra os corruptores, com canais seguros que permitam ao cidadão ser um fiscal do Estado, e a inclusão no ensino escolar dos males do que seja a corrupção, são as minhas sugestões.

Lembre-se: não existe corrupção se não existir um corruptor. A mídia precisa focar no corruptor, tanto ou mais do que no corrupto.

* Valdemiro A. M. Gomes – valdemiro@interconect.com.br.
(O Autor)